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O Ladrão e o Desconhecido


          Um homem cavalgava solitariamente por uma floresta sombreada pela luz pálida do luar. Nuvens coalhadas arrastavam-se pelo céu, retirando-se para o horizonte. E o vento soprava sua língua fria sobre a noite.
          O ar tocava a face do homem furtivamente; tinha o toque de terra e chuvas passadas. Ele enrijeceu o peito magro e, por um tempo, saboreou o aroma sombrio que o circundava – adorava o perigo. E num gesto muito seu, estreitou ainda mais o chapéu roto, fazendo com que uma mancha negra cobrisse inteiramente seu rosto enigmático.
          A noite era uma hora convidativa para ele. Seu longo e incessante passeio já o levara a caminhos desconhecidos, mas nunca experimentara a estranha expectativa de desbravar aquela misteriosa floresta. A trotes monótonos, estava ali fazia três dias, involuntariamente frustrado e extremamente irritado, à procura de algo que o instigava misteriosamente, pois costumava acreditar em seus instintos, como um exímio ladrão. No entanto, a realidade brusca dizia o oposto: caíra numa armadilha.
          Por mais que sua consciência debatesse, não conseguia acreditar  nesta hipótese: a de ter sido enganado. Seus punhos cerraram, só de lembrar aquela velha mendiga o aconselhando:

          - Vá para o norte, seguindo sempre a linha do horizonte, onde a sombra dorme depois da Grande Pedra. Assim que encontrar a Velha Floresta, estará seguro...e se for mais esperto ainda, encontre a Fortaleza Esquecida, ela esconde muito ouro, desde os tempo antigos, quando foi abandonada pelo seu senhor. Vá!

          Esganiçou a velha, que tinha um dos olhos coberto por uma catarata e poucos dentes para conter a língua dentro da boca. O homem lembrou-se com horror, chocado por ter acreditado na lorota de uma velha vagabunda e louca, que gritava pelas ruas, segurando um pequeno espelho.
          Mas como era um homem muito ambicioso, resolveu arriscar. Além de ansiar por um lugar onde pudesse manter-se distante das autoridades devido a crimes e latrocínios em série, desejou muito que o conselho da velha mendiga se tornasse realidade segundo seus instintos de confiança. Depois da viagem, que lhe custara longos dias, estava pensando decididamente dar a volta pelo caminho que fizera e encurralar a velha por ter-lhe enganado. Pensou nos inúmeros métodos de tortura que poderia usar. Isto lhe causou certa sensação de prazer. Seu sangue borbulhava, e as pernas lhe doíam de câimbra e cansaço. O cavalo se empertigava alarmado pelo comportamento do seu dono, mas seguia obediente o caminho entre as árvores da Velha Floresta. Sob as árvores, especulava teorias absurdas de como determinaria o fim da mendiga, caso ela tivesse mesmo mentido. Sentia o ódio correr suas veias e tinha quase certeza de que o conselho fora feito de piada por uma velhota zombeteira.
          Cavalgou por horas arriscando-se por um terreno acidentando, desviando-se de galhos baixos e perfurantes das velhas árvores que brotaram naquele sítio; cautelosamente, desceu algumas elevações íngremes e pedregosas ainda escorregadias por causa da chuva do dia anterior, até que deparou com uma imponente construção que o tempo não tivera pena de ruir com sua tragada durante séculos e mais séculos. O coração do homem deu um salto. Era ela, a Fortaleza Esquecida, solitária nas brenhas noturnas da Velha Floresta. Plantas trepadeiras caíam como véus dos arcos onde outrora foram suntuosas janelas. Estas se abriam como grandes portas para um abismo negro – um passo para a perdição sombria da noite.        
          O ladrão apeou do cavalo com muita sutileza, tateando o local com suas passadas largas e pesadas botas de couro cru; fez uma tocha improvisada com alguns galhos e gravetos secos colhidos nas velhas árvores, para examinar o lugar. Mas, mesmo com a chama flamejante da tocha, a face do ladrão ainda não fora revelada e, sim, acentuava-se ainda mais a sombra negra projetada pelo imenso e fétido chapéu, seu inseparável amuleto, segundo ele próprio acreditava.
          Árvores cresceram, arrebentando sem piedade com suas vigorosas e nodosas raízes o piso da fortaleza que era de puro granito, restando pouco o que havia dele. Pareciam cacos de vidros estilhaçados e espelhados pelo chão. Folhas mortas atapetavam o caminho aos pés das árvores que farfalhavam seus galhos parecendo incomodar-se com a estranha e inusitada visita. As paredes altas estavam rachadas no que havia sobrado delas, musgos as corroíam como uma feia doença de pele. Sua lastimável aparência declarava que fora abandonada há muito tempo.
          A Fortaleza Esquecida tinha uma alma escondida, despercebida e fria como seu próprio granito. Habitava seus muitos subterrâneos construídos em forma de labirinto, dançava solitária nos grandes salões e gritava horrivelmente de uma torre que subia desde o sótão, ameaçando as nuvens. Um ar de estranheza pairava naquele lugar isolado no meio de uma floresta densa e úmida, imersa totalmente na bruma enregelada sem que os habitantes daquela esquecida região soubessem de sua existência.


 
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